Belo Horizonte / MG - segunda-feira, 24 de julho de 2017

TDAH em Adultos (Déficit de Atenção)

Hiperatividade:

 

90%  (noventa por cento) dos médicos desconhecem o diagnóstico de TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade), segundo Luiz Augusto Rhode (psiquiatra do Rio Grande do Sul) que defendeu tese de doutorado sobre o assunto (www.abpgrasil.org.br);

 

Na mídia surgem quase diariamente reportagens sobre a "droga da obediência" (metilfenidato-ritalina) e outras reportagens sem nenhum embasamento científico.

 

Escala para auto-avaliação de tdah em Adultos:

 


 

 

 

Escala de Auto-Avaliação para Diagnóstico do Transtorno de

Déficit de Atenção/Hiperatividade em Adultos -  Versão 1.1 (ASRS-V1.1)

 

Extraído do Composite International Diagnostic Interview (CIDI)  da Organização Mundial da Saúde © Organização Mundial da Saúde

 

 

 

Alguns médicos psiquiatras, inclusive, acreditam que o TDAH seja uma invenção da indústria farmacêutica para vender Psicoestimulantes, apesar de este ser o transtorno mental com maior evidência científica de existência (estatisticamente comprovada) pelo dr. Luiz Augusto Rhode, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.


Sabe-se que o TDAH acomente 5% das crianças no mundo, ou seja, uma em cada sala de aula (estudos em 102 países mostram uma prevalência de 5,29% de Hiperatividade em crianças e adolescentes de todo o Mundo). Destes, metade, ou 2,5% persistem com o trasntorno na idade adulta, porém com menos hipercinesia (ou agitação psicomotora.).

 

 

Em meninos, predomina o tipo Hipercinético, ou  seja aquele menino que não pára quieto, é desatento e impulsivo. Nas meninas, predomina o tipo Desatento, ou seja aquela garota que fica "voando" dentro da sala de aula, desatenta, cujo rendimento escolar vai só caindo - diagnóstico feito geralmente após 5 anos de idade em crianças com inteligência e desenvolvimento normal.


Destes 5% da população, 2,5% persistem na idade adulta - o restante melhora expontâneamente, com ou sem tratamento - os adulto aprendem a lidar com suas deficiências, na maioria das vezes.


Nas crianças, o diagnóstico se baseia em três eixos e não são necessários exames caros (Avaliação Neuropsicológica, Ressonância Magnética, Tomografia E eletroencefalograma) - estes são exames complementares para diagnóstico diferencial: O diagnóstico é clínico, ou seja feito pela entrevista médica (geralmente psiquiatra ou neurologista).


Os eixos diagnósticos são: Desatenção, Hipercinesia e Impulsividade. As manifestações mais comuns são: inquietação motora, dificuldade de atenção nas aulas e na realização das tarefas escolares, além das falhas no controle dos impulsos.



Nos adultos há predomínio de sintomas cognitivos (disfunção executiva) e desatenção importante,  em contraposição ao quadro predominantemente motor e comportamental na infância.


Entre os adultos ficam mais evidentes as imperfeições das chamadas funções executivas, entendendo-se por esse conceito um conjunto complexo de funções de planejamento, organização e execução de tarefas visando a uma meta mais adequada no futuro de preferência a uma resposta imediata, com ganhos menores no presente.


No adulto é um quadro menos evidente, onde é fundamental o  

 

DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL: Transtornos do humor e transtornos ansiosos (muito mais comuns - acometem até 20% dos adultos)

 

provocam prejuízo importante na memória e comorbidades (outros transtornos mentais) que aparecem associados ao TDAH com uma freqüência muito maior que entre as crianças.



Além disso, frequentemente o adulto não se lembra de ter tido déficit de atenção na infância (fundamental ao diagnóstico, pois a doença se inicia na infãncia).


Uma criança com TDAH pode apresentar várias dificuldades no relacionamento com as outras pessoas e comprometimentos da dinâmica psíquica (como depressão, ansiedade e outros).


Críticas freqüentes, punições repetidas, além evidentemente da escassez de elogios, passam a fazer parte do repertório de experiências da criança e adolescente que certamente ficarão internalizadas na pessoa adulta e que nortearão a imagem que ela fará de si mesma.


A criança é taxada pelos colegas e pelos pais como "burra", preguiçosa, lenta", quando, na verdade, não consegue render e se focar no que estuda - o que seria resolvido com um tratamento adequado e, principalmente INFORMAÇÃO.



As comorbidades são muito freqüentes

 

70% dos portadores de TDAH apresentam co-morbidades, isto é, outros transtornos mentais.


  • 40% apresentam transtorno desafiador opositor (TOD)

  • 30% apresentam transtorno de ansiedade (fobia, ansiedade generalizad,etc)


  • 15% apresentam transtornos de aprendizagem (Leitura, escrita e matemática) e precisam de acompanhamento psicopedagógico e fonoaudiológico.


  • 10% apresentam depressão

  • 5a 10% apresentam transtorno bipolar do humor.
  • 6% apresentam enurese noturna (xixi na cama).

 



Psiquiatras especializados no TDAH costumam ter a experiência de rever um antigo cliente e se darem conta que no tratamento anterior não identificaram o transtorno e trataram apenas a condição comórbida.


Timothy Wilens, psiquiatra especialista da Universidade de Harvard, nos EUA, estima que de cada dez adultos atendidos em ambulatório de saúde mental quatro apresentam o TDAH associado a um ou mais transtornos psiquiátricos.


Muitas vezes o paciente procura o tratamento por causa do problema comórbido e não por causa do TDAH.


Quando o motivo da consulta são os sintomas do TDAH trata-se de casos com menor grau de comprometimento na vida do indivíduo. Geralmente são indivíduos que fizeram seu autodiagnóstico ou somente foram diagnosticados na vida adulta.


Portadores de TDAH que tiveram seu diagnóstico ainda na infância geralmente apresentam mais comorbidade e maior comprometimento em sua vida.



fonte do questionário abaixo:


http://www.tdah.org.br/diag02.php


O questionário abaixo é denominado ASRS-18 e foi desenvolvido por pesquisadores em colaboração com a Organização Mundial de Saúde. Esta é a versão validada no Brasil.

A referência é: Mattos P, Segenreich D, Saboya E, Louzã M, Dias G, Romano M. Adaptação Transcultural para o Português da Escala Adult Self-Report Scale (ASRS-18, versão1.1) para avaliação de sintomas do Transtorno de Déficit de Atenção / Hiperatividade (TDAH) em adultos. Revista Brasileira de Psiquiatria (in press).


IMPORTANTE: Lembre-se que o diagnóstico definitivo só pode ser fornecido por um profissional.

Por favor, responda as perguntas abaixo se avaliando de acordo com os critérios do lado direito da página. Após responder cada uma das perguntas, circule o número que corresponde a como você se sentiu e se comportou nos últimos seis meses.

 
1. Com que freqüência você comete erros por falta de atenção quando tem de trabalhar num projeto chato ou difícil?          
2. Com que freqüência você tem dificuldade para manter a atenção quando está fazendo um trabalho chato ou repetitivo?          
3. Com que freqüência você tem dificuldade para se concentrar no que as pessoas dizem, mesmo quando elas estão falando diretamente com você?          
4. Com que freqüência você deixa um projeto pela metade depois de já ter feito as partes mais difíceis?          
5. Com que freqüência você tem dificuldade para fazer um trabalho que exige organização?          
6. Quando você precisa fazer algo que exige muita concentração, com que freqüência você evita ou adia o início?          
7. Com que freqüência você coloca as coisas fora do lugar ou tem de dificuldade de encontrar as coisas em casa ou no trabalho?          
8. Com que freqüência você se distrai com atividades ou barulho a sua volta?          
9. Com que freqüência você tem dificuldade para lembrar de compromissos ou obrigações?          
Parte A
1. Com que freqüência você fica se mexendo na cadeira ou balançando as mãos ou os pés quando precisa ficar sentado (a) por muito tempo?          
2. Com que freqüência você se levanta da cadeira em reuniões ou em outras situações onde deveria ficar sentado (a)?          
3. Com que freqüência você se sente inquieto (a) ou agitado (a)?          
4. Com que freqüência você tem dificuldade para sossegar e relaxar quando tem tempo livre para você?          
5. Com que freqüência você se sente ativo (a) demais e necessitando fazer coisas, como se estivesse “com um motor ligado”?          
6. Com que freqüência você se pega falando demais em situações sociais?          
7. Quando você está conversando, com que freqüência você se pega terminando as frases das pessoas antes delas?          
8. Com que freqüência você tem dificuldade para esperar nas situações onde cada um tem a sua vez?          
9. Com que freqüência você interrompe os outros quando eles estão ocupados?          
Parte B


Como avaliar:

Se os itens de desatenção da parte A (1 a 9) E/OU os itens de hiperatividade-impulsividade da parte B (1 a 9) têm várias respostas marcadas como FREQUENTEMENTE ou MUITO FREQUENTEMENTE existe chances de ser portador de TDAH (pelo menos 4 em cada uma das partes).
O questionário ASRS-18 é útil para avaliar apenas o primeiro dos critérios (critério A) para se fazer o diagnóstico. Existem outros critérios que também são necessários.

IMPORTANTE: Não se pode fazer o diagnóstico de TDAH apenas com os sintomas descritos na tabela! Veja abaixo os demais critérios.

CRITÉRIO A: Sintomas (vistos na tabela acima)

CRITÉRIO B: Alguns desses sintomas devem estar presentes desde precocemente (antes dos 7 ou 12 anos).

CRITÉRIO C: Existem problemas causados pelos sintomas acima em pelo menos 2 contextos diferentes (por ex., no trabalho, na vida social, na faculdade e no relacionamento conjugal ou familiar).

CRITÉRIO D: Há problemas evidentes por conta dos sintomas.

CRITÉRIO E: Se existe um outro problema (tal como depressão, deficiência mental, psicose, etc.), os sintomas não podem ser atribuídos exclusivamente a ele.


Entrevista com a Dra Ana Beatriz Barbosa e Silva, psiquiatra, Portadora de TDAH


 

fonte: http://www.abpcomunidade.org.br/clipping/exibClipping/?clipping=10422

Clipping do dia:      28/09/2009
Data de veiculação: 30/09/2009

 

 

"Eu me achava uma burra"

 

Entrevista com Ana Beatriz Barbosa Silva

 


Veículo: Revista Veja
Seção: Entrevista (páginas amarelas)
Data: 30/09/2009
Estado: Nacional



A psiquiatra conta como sofreu com o déficit de atenção na infância e como aprendeu a conviver com o transtorno que atinge 6% da população em idade escolar


A psiquiatra carioca Ana Beatriz Barbosa Silva, 43 anos, especializou-se em traduzir para uma linguagem acessível o universo misterioso dos transtornos mentais. Seu último livro, Mentes Perigosas, apresentou as muitas faces dos psicopatas e há 44 semanas faz parte da lista dos mais vendidos de VEJA. Ela já havia feito uma primeira incursão vitoriosa. Seu Mentes Inquietas, sobre o transtorno do déficit de atenção (TDA), vendeu 200 000 cópias e está sendo relançado. Nesta entrevista, Ana Beatriz fala de sua experiência, da importância do diagnóstico precoce e afirma que, embora não tenha cura, o transtorno permite uma vida normal e criativa.


Como a senhora descobriu que tem o transtorno do déficit de atenção?


Eu já estava no 3º ano da faculdade de medicina. Tinha 19 anos. Fui a um seminário em Chicago sobre depressão. Consegui errar tudo: cheguei um dia e uma hora atrasada para a primeira aula. Como não apareci, minha inscrição foi cancelada. A atendente da faculdade viu meu desespero e disse que eu poderia me transferir para outro curso, com início naquele dia. O professor era John Ratey, papa do déficit de atenção. Ele começou a detalhar o transtorno e pensei que estivesse falando sobre mim. Chegou a ser incômodo. Quando a aula acabou, fui atrás dele conversar sobre meu comportamento desde a infância. No dia seguinte fiz um teste que revelou que eu tinha TDA em grau grave. Ele então me disse: "Sobreviver, você já sobreviveu. Sabe se virar, frequenta uma boa faculdade. Mas você mata um leão por dia". Comecei então o tratamento.


Foi um divisor de águas. Senti-me como um míope que põe o primeiro par de óculos e percebe que o mundo é cheio de detalhes. Usei a medicação por cinco anos consecutivos. Hoje, quando escrevo um livro, volto a tomá-la no último mês. É a hora em que junto todas as informações e preciso ter mais senso crítico.


O que provoca o TDA?


A pessoa que tem o transtorno nasce com uma alteração no funcionamento do lobo frontal. Essa seção do cérebro é um maestro do comportamento humano, uma área em que se cruzam sistemas neurais ligados à razão. Entre outras ações, regula a velocidade e a quantidade de pensamentos. No TDA, esse filtro funciona com eficiência menor. O resultado é a hiperatividade mental e, consequentemente, a perda de foco, de objetividade. Quem nasce com TDA não tem problema de inteligência, mas de administrar o tempo, fixar a atenção, dar continuidade ao que inicia. O transtorno é muito mais comum do que se imaginava. Segundo a Associação de Psiquiatria Americana, 6% da população em idade escolar tem esse padrão de funcionamento mental nos Estados Unidos. No Brasil, as pesquisas apontam uma média próxima a essa.


O que provoca essa alteração do funcionamento do cérebro?


É um transtorno químico, causado pela baixa de dois neurotrasmissores: a dopamina e a noradrenalina. Essa alteração diminui a ação filtrante do lobo frontal. A genética já mostrou ter papel importante, mas fatores externos acabam interferindo na evolução do transtorno. Se não é cercada por uma organização mínima, a pessoa pode ter sérios prejuízos em sua qualidade de vida.


Como o transtorno interferiu em sua trajetória pessoal?


Sempre achei que havia algo errado comigo. Na escola, tinha horror a ditado. Meu coração disparava: sabia que precisava prestar atenção ao que a professora dizia e, simultaneamente, observar se não estava cometendo erros ao escrever. Nessas horas, eu me sentia a criança mais burra da sala. Fora do colégio, também sofria. Uma vez meu pai, que é professor, corrigiu tanto meu diário que botei fogo nas páginas depois. Vivia com as pernas roxas de tanto cair e bater nos móveis. Meu armário era uma bagunça absurda. Tenho uma irmã cinco anos mais velha, centrada, organizada. Durante muito tempo, dei a ela parte da minha mesada para que arrumasse meu armário. Todas as vezes que minha mãe reclamava comigo, eu concordava, entendia que ela tinha razão. Mas eu não sabia como tudo isso acontecia. No início da adolescência, bateu uma vontade enorme de mudar. Eu era uma criança falante e me fechei. Fiquei retraída, quietinha, para não errar. Vivia no meu quarto, lendo. Isso foi dos 12 aos 16 anos. Na infância me chamavam de pinga-fogo, porque eu não parava. Na adolescência, quando me tranquei, virei Bia Sid (de sideral). Às vezes, achava que era burra. Por outro lado, sabia que tinha conhecimento e imaginação. Acabava o dia com dor de cabeça de tanto pensar. Era uma angústia.


Mas a senhora hoje é uma psiquiatra bem-sucedida. Como conseguiu isso?


O diagnóstico foi libertador. Passei a me observar. Com a medicação, comecei a fazer mais rápido o que antes demandava muito esforço. Foquei na psiquiatria. No meu trabalho, nada me escapa hoje. Tenho um filme na cabeça sobre cada paciente. Quem tem TDA presta uma atenção acima da média naquilo que desperta seu interesse verdadeiro. É o que a gente chama de hiperfoco. Por isso, acho injusto falar de déficit de atenção. O que existe é uma atenção instável.


O menino com TDA pode sofrer na escola, mas desenhar muito bem ou tocar piano de ouvido, se essa for a sua paixão. Por isso, é fundamental que os pais descubram os talentos do filho e o estimulem a fazer aquilo de que realmente gosta. Para quem tem TDA, isso funciona como remédio.


Como sua família enfrentou o problema?


Minha mãe creditava meu comportamento a falhas do método pelo qual fui alfabetizada. Meu pai achava que era preguiça. Mas eles eram compreensivos, porque sabiam que eu não fazia nada de propósito e era honesta, sincera, assumia os erros. Voei de bicicleta no carro do vizinho e meu pai pagou o conserto sem reclamar. Quando eles buscaram um diagnóstico para meu comportamento, os médicos disseram que eu tinha uma disritmia e me passaram um remédio. Devido à sonolência que causou, parei logo de tomar essa medicação. Ainda bem.


Por natureza, as crianças costumam ser agitadas e inquietas. Quando os pais devem desconfiar que o filho sofre do transtorno?


Na infância, desatenção e impulsividade são normais. Mas, em geral, estão relacionadas a algum motivo específico: porque a criança dormiu mal, está preocupada com alguma coisa, apaixonou-se pela primeira vez. O que acontece é que uma criança com TDA tem esse comportamento de maneira constante e mais intensa. Ela já nasce com o cérebro funcionando dessa maneira e, antes dos 7 anos, é possível perceber isso. Na infância, existe uma profusão de sintomas – e não são notas baixas. O lençol não para na cama porque a criança se mexe demais durante a noite. Também pode falar dormindo. Os professores mandam recados dizendo que aquele aluno é extremamente inteligente, mas isso não se traduz nas avaliações. A criança também é excluída das brincadeiras na escola, porque tem dificuldade de esperar a vez nos jogos em grupo e manter a atenção nas tarefas. Olhar a agenda e os cadernos também ajuda muito: eles refletem a organização do pensamento e como a criança anota as observações que professores fazem durante as aulas. A condição fundamental para o diagnóstico de TDA é a hiperatividade mental. Ninguém adquire TDA ao longo da vida. Quem tem o transtorno já nasceu com esse tipo de funcionamento cerebral. É o histórico que leva ao diagnóstico preciso.


Como foi sua vida escolar?


Nunca repeti ano. Conseguia passar nas provas finais ou na recuperação. Nessa hora, meus pais assumiam uma função, digamos, mais executiva. Eles me ajudavam a me organizar, e aí eu estudava como louca. Quando existe planejamento, vai tudo bem com a pessoa que tem TDA.


O que a senhora aconselha a quem descobre que o filho tem TDA?


A primeira coisa é ver o grau de sofrimento dessa criança, o nível de desconforto. É preciso ir à escola conversar com professores, ouvir a babá. A partir daí, dar oportunidade à própria criança para que ajude no tratamento, participe. Tenho um paciente que enlouquecia a família. Depois de usar medicação por dois anos e ter uma melhora estupenda, ele disse: "Já tenho noção de como é meu cérebro funcionando da maneira que tem de ser e queria parar de tomar o remédio, tentar do meu jeitinho". Ele ganhou uma percepção de seu comportamento. Outra coisa que os pais devem entender é que ser justo em questão educacional não é tratar os filhos todos da mesma maneira. Eles têm de ver o que cada um precisa. No caso do TDA, é fundamental dar ênfase à disciplina. Inclusive com a mesada. Como ele tende a gastar tudo de uma vez, o dinheiro tem de ser liberado aos poucos, para criar um limite e cumpri-lo. Com meus pacientes, por exemplo, costumo assinar um contrato toda vez que quero alguma coisa. Sempre funciona.


A senhora conta a seus pacientes no consultório que tem TDA?


Sim, e principalmente as crianças ficam muito aliviadas. Outro dia atendi um paciente que batia a cabeça na parede. A mãe pensou que o filho estivesse louco. E eu disse a ele: "É para tentar parar o excesso de pensamento, né? A cabeça pesa mesmo, mas não é assim que vai melhorar". Ele ficou impressionado porque eu entendia exatamente o que ele estava sentindo. No livro, publiquei experiências minhas com nomes trocados. Como as da estudante de fonoaudiologia que achava que tinha alguma falha de caráter porque se distraía nas aulas, pegava cadernos emprestados com amigas, tirava notas boas e se achava uma fraude.


Quais são as tendências mais modernas no tratamento do transtorno?


Antes, só existia o metilfenidato (a Ritalina). Mas 15% dos pacientes não respondem bem a ele. É uma substância que surte efeito quando a desorganização e a falta de foco são os fatores que mais atrapalham a vida. Ao longo desta década, a bupropiona, substância usada no tratamento para parar de fumar, mostrou-se muito eficiente também para TDA. A atomoxetina, um tipo de antidepressivo, também passou a ser usada – principalmente nos casos em que depressão e ansiedade se manifestam junto. Costumo dizer que a melhor medicação é a eficaz com a menor dose. Mesmo no tratamento de adultos, começo com dose de criança. E avalio o tratamento complementar necessário. A terapia cognitivo-comportamental tem-se mostrado muito eficaz.


Existe prescrição exagerada de medicamentos hoje?


Sim. Não se deve prescrever remédio de TDA em um momento de desatenção ou para aumentar a concentração no ano de vestibular, por exemplo. O excesso de informação pode levar o cérebro à exaustão, e a pessoa fica sujeita a distrações, falhas de memória. Mas isso é fruto de uma sobrecarga circunstancial. Quando acaba, os sintomas desaparecem. O que acontece é que, por desinformação, alguns pais solicitam a medicação antes de uma investigação cuidadosa sobre o funcionamento mental do filho. Em quem não tem TDA, o remédio cria um efeito falso, dá apenas vigor numa situação de cansaço extremo.


TDA tem cura?


Não tem cura, mas há grandes chances de um final feliz. No momento em que você entende sua engrenagem, passa a dominá-la em vez de ser dominado por ela. Aí pode até levar vantagens. O excesso de pensamento – que causa exaustão, desorganização e esquecimento – também traz ideias. Existem ideias boas e más. O grande aliado de quem sofre de TDA é um caderninho. Em qualquer lugar, eu anoto pensamentos que já deram origem a capítulos de livros. Mesmo para ideias sem sentido, é vital ter organização. Dali pode sair algo realme
nte inovador.