Belo Horizonte / MG - domingo, 26 de março de 2017

Transtorno bipolar de início na infância e adolescência

resenha sobre artigo abaixo

Fonte: Artigo de Revisão/atualização: Aspectos ambientais do transtorno bipolar de início na infância e adolescência publicado na Revista Psiquiatria e Psicanálise da infância e Adolescência (7):13: 51-55 jan. dez 2007- Belo Horizonte – Centro Psíquico da Adolescência e Infância – Fhemig 2007 - dos autores: Gabriel Ferreira Pheula (pediatra e psiquiatra infanto juvenil), Cristian Patrick Zeni (psiquiatra infanto juvenil), Carla Ruffoni Ketzer de Souza, Psiquiatra infanto Juvenil e Silzá Tramontina – Psiquiatra infanto juvenil.

Não se sabe a etiologia do Transtorno Bipolar na infância e adolescência (TBia).  Como toda doença médica, acredita-se que tenha fatores bio-psio-sociais e genéticos envolvidos (Chang et al , 2004).  A etiologia tem forte componente genético, através de herança poligênica de penetrância variável.

Estudos de neuroimagem cerebral têm demonstrado redução do tamanho do hipocampo, córtex pré-frontal e gânglios basais nestes pacientes (Chang ET AL, 2004). Estes locais estão associados com a regulação das emoções e incapacidade de manter a mesma variação de estado emocional basal (tônus) pela maior parte do tempo.

A tendência a maior desregulação do humor também poderia estar relacionada a exposição no período pré e Peri natal a toxinas e infecções (Birmaher, 2004).

Uma vez que há forte evidência de transmissão genética e familiar, os fatores psicológicos e ambientais não estariam relacionados primariamente à etiologia, mas sim com desencadeante de episódios afetivos maiores.

Recomendo para pais, profissionais e público leigos:


Crianças e adolescentes com transtorno bipolar

Boris Birmaher

 

 

Tais fatores incluiriam também estressores psicológicos como brigas em família, perda de emprego, além de componentes de estilo de vida, como ritmo de sono e rotinas de alimentação (Birmaher, 2004).

FATORES AMBIENTAIS E ESTILO DE VIDA – Em adultos bipolares, a manutenção de um ritmo social mais estável, que inclui padrões regulares de sono, alimentação , atividade física e estímulos emocionais têm sido associada com diminuição dos sintomas maníacos e depressivos (Malkoff-Schwartz et, 2000).

Assim, o manejo de tais aspectos fisiológicos, como a manutenção de um ritmo circadiano estável, pode auxiliar no manejo da doença. Outros fatores ambientais que dizem respeito a eventos estressantes interpessoais podem também desencadear episódios afetivos.

O conceito de emoção expressada (EE) enfatiza que uma ocorrência excessiva de hostilidade, comentários críticos ou envolvimento emocional excessivo, podem desencadear episódios afetivos (Brown et AL, 1972).

O FUNCIONAMENTO PSICOSSOCIAL DE PACIENTES COM TBia – Um estudo de Geller et al em 2000 avaliou o funcionamento psicossocial de pacientes com  TBia.

 Os autores encontraram nestes pacientes um maior prejuízo na qualidade da relação mãe-criança, maior grau de tensão na relação mãe-criança e pai-criança e pior relacionamento com seus pares.

Outro achado  deste estudo foi que a maior parte destes pacientes estavam vivendo com apenas um dos pais biológicos, uma vez que maiores taxas de divórcio foram encontradas comparadas a indivíduos não portadores do transtorno.

Os autores ressaltam que este fato poderia estar relacionado com a presença de psicopatologia nos pais. Logo, parece evidente a necessidade de se considerar o grau e os achados específicos dos prejuízos encontrados, a fim de serem planejadas intervenções psicossociais mais efetivas.

AS FAMÍLIAS DE PACIENTES COM TBia – Stierlin et al (1986) descreveram famílias de pacientes em que um membro, geralmente adulto jovem apresentava transtorno bipolar.

Encontraram famílias onde a negociação de habilidades relacionais é extremamente difícil, a qualidade das interações é muito pobre, os estilos de cuidados parentais são bastante rígidos, caracterizando uma falta de congruência e clareza do paciente que não consegue decidir entre dois estilos de comportamento tão díspares (“complementaridade restritiva”).

A incompatibilidade é acompanhada pela existência de coalizões entre alguns membros da família o que piora  a capacidade de negociação. Assim, são pressionados a assumir um dos dois “pólos”, sendo partidário de um grupo ou de outro (“coalizões”).

Também são encontrados um vínculo simbiótico e um envolvimento excessivo nas atividades uns dos outros.  A polaridade também é observada na rigidez das definições de condutas e emoções. Há uma excessiva delimitação do que é desejável ou indesejável, sem o equilíbrio e a flexibilidade necessária (“crenças firmemente mantidas”).

Tais aspectos, dentro do tratamento da criança ou adolescente portador de transtorno bipolar, pode contribuir par o aparecimento dos sintomas. O paciente pode sentir a necessidade de se “aliar”, ou ser induzido a expressar aspectos de lealdade, com um dos pais.

O IMPACTO DA DOENÇA NO FUNCIONAMENTO DA FAMÍILA – Os transtornos do humor em adolescentes estão associados com dificuldades no relacionamento com seus pais e e irmãos (Puig-Antich et al, 1993).

 Robertson et al (2001), avaliando as percepções do funcionamento familiar, por parte de adolescentes portadores do transtorno, não encontrou diferenças nos escores de coesão e capacidade de adaptação familiar, quando com parados com indivíduos do grupo controle.

No entanto, os autores ressaltam uma limitação importante do estudo que é o fato dos pacientes não estarem apresentando um episódio afetivo no momento da avaliação, o que pode justificar, em parte os resultados.

TRATAMENTO PSICOSSOCIAL DO TBia –Fristad et al (2003) concluíram que o monitoramento mais próximo dos sintomas de humor, a  modificação precoce do ambiente, a melhora da adesão às medicações, o aumento do suporte social, a melhora do ajustamento familiar, a organização das rotinas diárias seriam importantes no tratamento.

A partir da idéia aciama, observada em adultos, os autores organizaram um eestudo-piloto, aplicando seu manual para Grupos de Psicoeducação Multifamiliar (GPMF), onde foram avaliadas as famílias e 35 pacientes com transtornos do humor entre 7 e 11 anos, sendo 16 com TBia e 19 com distimia ou depressão maior. 

Os grupos que receberam psicoeducação apresentaram significativo maior conhecimento sobre a doença, significativa melhora no suporte social dado pelos pais 6 meses após a intervenção e 6 meses depois 82% dos pacientes apresentaram melhora na sua habilidade de obter serviços de atendimento adequado

1)   Pavuliri et al (2004) criaram a Terapia Cognitiva Comportamental focada na Criança e família (RAINBOW),  baseado na terapia cognitiva focada na família (TFF) para bipolares adultos de Miklowitz et al (2000), que enfoca a psicoeducação, a emoção expressa, o manejo da crise e a prevenção de recaída. O RAINBOW foi criado para crianças na faixa d 8 aos 12 anos estabilizadas, em famílias sem pais com doença mental grave ou inteligência muito grave.

Pavluri, então selecionou 34 pacientes entre 5 e 17anos estabilizdos. Apenas 5 dos pacientes não apresentavam comorbidade. 73,5% apresentavam co-morbidade com TDAH (déficit de atenção e hiperatividade), 35% com transtorno desafiador opositor e 32% com transtorno de aprendizagem.

 Após a intervenção, os pacientes apresentaram redução da gravidade dos sintomas pela Children Global Impression Scales for bipolar disorder e do funcionamento pela Children´s Global Assesmeent  Scale e apresentaram altos níveis de integralidade do tratamento, adesão e satisfação parental.