Belo Horizonte / MG - quarta-feira, 24 de maio de 2017

Preconceito, Estigma contra doença mental

Estigma: (etmologia/origem da palavra): marca, sinal usado para identificar escravos, traidores, ladrões, prostitutas, homossexuais e portadores de lepra e em doentes mentais.



A falsa crença de que os loucos são perigosos (93% nunca cometeram qualquer crime) leva a reações de medo, raiva e discriminação.



A doença mental marca, estigmatiza, os pacientes, suas famílias, suas gerações, os medicamentos psiquiátricos e todos os profissionais da saúde mental.




Um filme de 40 anos atrás já demonstra claramente o preconceito aos profissionais de saúde mental: “Um estranho no Ninho, de 1975, onde

Randle Patrick McMurphy (Jack Nicholson), um prisioneiro, simula estar insano para não trabalhar e vai para uma instituição para doentes mentais. 

Lá estimula os internos a se revoltarem contra as rígidas normas impostas pela enfermeira-chefe Ratched (Louise Fletcher), mas não tem idéia do preço que irá pagar por desafiar uma clínica "especializada".


One Flew Over the Cuckoo's Nest

  1. Filme de 1975
  2. One Flew Over the Cuckoo's Nest é um filme estado-unidense de 1975, do gênero drama, dirigido por Miloš Forman. O filme é uma adaptação de um romance de Ken Kesey, e foi produzido pelo ator Michael Douglas.  
  3. Data de lançamento: 19 de novembro de 1975 (EUA)
  4. Direção: Miloš Forman
  5. Autor: Ken Kesey


Ficou a imagem de que “Médicos psiquiatras não sabem diferenciar um doente mental de um simulador”

Além disso era usada a eletroconvulsoterapia (“sonoterapia”) ou eletrochoque para mau comportamento, de forma punitiva, sem técnica adequada, colocando o médico psiquiatra com o um sádico torturador a serviço da repressão.

Ocorreu o movimento da Reforma Psiquiátrica que, visando o fim dos manicômios, acabou por reforçar o estigma contra os psiquiatras e hospitais. 


Os grandes depósitos de pacientes que existiam antes da Reforma foram extintos (ou estão sendo na maior parte do Brasil), porém o dinheiro mensal das internações psiquiátricas (um dos maiores custos do governo) não vai para ambulatórios ou serviços alternativos (CAPS) em psiquiatria. 

A saúde mental recebe apenas 2% da verba da saúde. Desta forma, fecharam-se os hospitais antes de se criarem serviços substutivos/alternativos e a população ficou desassistida. Muitos pacientes- muitos pacientes foram abandonados pelas familias por anos. 

Com poucos serviços ambulatoriais, serviços secundários chamados de CAPS-II no Brasil, poucos CAPS III (24h), menos ainda leitos em hospitais gerais e hospitais psiquiátricos pelo SUS.

A demanda de leitos psiquiátricos tem aumentado geometricamente com a chegada do crack ao Brasil nas últimas décadas.

Os principais preconceitos associados ao Psiquiatra são:


  • “Psiquiatra não é médico de verdade'

  • “Psiquiatras dão diagnóstico inválidos (porque não existem exames complementares que acusam as doenças) e não conseguem separar doentes de simuladores”

  • Psiquiatras dão Tratamentos ineficazes

  • Psiquiatras estão a serviço da Repressão para manter a ordem

  • ECT (eletrochoque) é usado como punição e castigo

  • Medicamentos para Dopar ou sedar, apenas, sem promover cura ou melhora

  • Medicamentos viciam e alteram a personalidade de quem usa



Fonte: Sartorios – WPA 2010 – Guia para combater o Estigma da Psiquiatria e dos Psiquiatras


Importância dos Transtornos Mentais

Contribuições de doenças não transmissíveis para anos de vida perdidos (em 2005) – Prince, 2007 – The Lancet:


  • 28% Transtornos Neuropsiquiátricos

10% Depressão Unipolar
4% Drogas e substâncias
3% Outros Transtornos Mentais
3% Outros Transtornos Neuropsiquiatras
3% Outros Transtornos Neurológicos
2% Transtorno Bipolar
2% Demência
2% Esquizofrenia
1% Epilepsia
  • 20% Doenças Cardiovasculares
  • 11% Câncer

  • 10% Disfunções de Órgãos e Sentidos

  • 8% Doenças Respiratórias

  • 7% Outras doenças de notificação não obrigatórias

  • 6% Doenças do aparelho digestivo

  • 4% Doenças Musculoesqueléticas

  • 4% Doenças endócrinas


Consequências do Estigma/Preconceito contra doenças mentais:




  • Menor prioridade para políticas de saúde no SUS

  • 40% dos países Não têm políticas de saúde mental

  • No Brasil apenas 2% dos gastos em saúde vão para a Saúde Mental

  • Investe-se muito pouco em prevenção primária (consulta com psiquiátra em ambulatório) versus internações clínicas ou psiquiátricas em casos de crise.

  • Outros médicos encaminham pouco ao psiquiatra por :

  • Medo de “perder os pacientes” (“Dr. O senhor acha que sou louco?”)

  • Duvidam da eficácia do tratamento

  • Têm medo de estigmatizar/ rotular seus pacientes.

  • O motivo mais comum para os pacientes não seguirem o encaminhamento para o tratamento é o medo do estigma da doença mental

  • Quando há doença clínica associada a doença mental, há pior tratamento porque os clínicos tendem a acreditar que as queixas de sintomas físicos e sintomas são produtos de uma mente perturbada.

  • Menos uso de recursos diagnósticos (pelos mesmos motivos acima) – queixas pouco valorizadas

  • Maior mortalidade por Infarto do miocardio e Acidente Vascular Cerebral (AVC).

  • O estigma agrava o estigma.

  • 32% dos esquizofrênicos não são tratados no mundo e 58% no Brasil

  • 50 % dos pacientes diagnosticados com esquizofrenia não remarcam nova consulta no Canadá (não se tem dados no Brasil)

  • A baixa auto-estima em portadores de deonça mental, mesmo em remissão total, leva à baixas taxas de emprego formal, apesar da capacidade (não procuram emprego, ou não conseguem ser aceitos).


Quarenta por cento (40%)  das citações da Palavra Esquizofrenia na mídia se referem a :

  • 48% Pesquisa e genética

  • 12% Pacientes Falando (os próprios psiquiatras não expõem seus pacientes)

  • 11% Medicamentos

  • 11% Maconha (que aumenta em 5 vezes o risco de desenvolver esquizofrenia, 2 vezes o risco de desenvolver transtorno bipolar, depressão e ansiedade)

  • 9% Psicanálise

  • 9% Gênios Anormais

  • Sentido metafórico pejorativo


Quando há um crime, a mídia explora ao extremo, e alguns psiquiatras aparecem dando diagnósticos precoces, aumentam o estigma sobre a doença.


  • FUNDAMENTAL: 93% das pessoas com doença mental (esquizofrênicos, bipolares e com psicose não especificada) não são violentos – Archives Ger. Pshych. 1996


  • 95% dos homicídios são cometidos por pessoas SEM Transtorno Mental.


  • O uso de álcool e drogas dobram o númer de casos de violência na população geral e em pacientes com transtornos mentais.


A melhor forma de se prevenir a Psicofobia é através da informação e da avaliação da postura do psiquiatra.

“Nunca se envolveriam com alguém com esquizofrenia”

Cidadadãos Brasileiros (%)

Psiquiatras Brasileiros (%)

Psiquiatras Suiços (%)

Para trabalhar

10

1

42

Para apresentar um amigo

10

2

32

Mu24dar para um apartamento vizinho

11

4

10

Apoiar casamento com um familiar

24

21

30

Oferecer emprego

27

5

55

Confiar para confiar filhos – mesmo em remissão dos sintomas

49

20

66

Fonte: IPQ - USP

Pesquisa com cidadãos brasileiros  2001 entrevistados por telefone

Entrevistas pessoais com 1414 psiquatras brasileiros no congresso de 6000 presentes

Estudo com Psiquiatras Suiços

Direitos de Pacientes Esquizofrênicos (entrevista)

Cidadadãos Brasileiros (%)

Psiquiatras Brasileiros (%)

Psiquiatras Suiços (%)

Internação Involuntária

67

97

70

Não têm direito de votar

6

6

19

Não podem dirigir

45

24

65

Há muito preconceito quanto ao uso de medicamentos psiquiátricos (psicofármacos): “Dr. Estou bem. Quando vou ficar livre dos medicamentos?” Como se usá-los fosse provocasse vício ou fosse alguma fraqueza de personalidade.

Crenças sobre medicamentos psiquiátricos (psicofármacos)

Cidadadãos Brasileiros (%)

Psiquiatras Brasileiros (%)

Não são o melhor tratamento

17

3

Apresentam grande risco de viciar

59

10

O risco de usar é maior do que o benefício

21

2

Apenas acalmam (sossega leão)

38

2

Quem usa fica mais doente e muda a personalidade

26

1

“Não tenho nada a agradecer a eles”

21

4

Não reduzem o Tempo de Internação

15

2

Fonte: Instituto de Psiquiatria da USP IPQ

Como reduzir o estigma?


  • Contato e informação com a mídia em linguagem acessível (o jornalista apresenta o mesmo conhecimento da população), logo deve-se evitar o jargão médico.

  • Quanto maior o contato com pacientes psiquiátricos, menor estigma

  • Quanto maior trabalho em hospitais psiquiátricos, menor estigma

  • Psiquiatras mais experientes têm crenças e atitudes menos estigmatizadoras

  • Quanto maior o contato com pacientes com doença mental menor o estigma

  • Quanto menor a escolaridade, maior o preconceito

  • Mais jovens apresentam menor preconceito

  • Pessoas que já se trataram, ou tiveram parentes tratados por psiquatra têm menor preconceito


Melhores estratégias para se reduzir o preconceito (psicofobia)


  • Combater o estigma nos profissionais de saúde mental

  • Divulgar o problema e as consequências graves da psicofobia (mortabilidade aumentada por AVC e derrame, exclusão social, abandono de emprego e tratamento, informações sobre reabilitação social e profissional)

  • Ganhar apoio da sociedade

  • Informação


Usar a mídia como parceira:


  • Apresentar conceitos claros, sem terminologia hermética da medicina e psiquiatria. Falar para pessoas leigas, como termos comuns

  • Lembrar sempre e, principalmente nos casos de violência, que 93% dos pacientes com transtorno mental não são violentos e que 95% dos homicídios são causados por pessoas sem transtorno mental.

  • Existe tratamento eficaz para problemas mentais

  • Sugerir reportagens sobre iniciativas de reinserção social do pcaciente

  • Dar voz aos pacientes

  • O paciente psiquiátrico sofre tanto ou mais do que outros doentes (“não está se refugiando num mundo de fantasia cor de rosa”).

  • Promover encontros frequentes com a mídia para sensibilizar a população

  • Tirar os pacientes do anonimato para que possam reinvindicar seus direitos: não há vagas especiais para portadores de doença mental – muitas vezes são excluídos em processos seletivos se dizem seu diagnóstico!

  • Promover reinserção no trabalho e tratamento, conseguir descontos e isenções tributárias.

  • O que mais prejudica, finalmente o tratamento é o estigma, a Psicofobia

Fontes:

1. http://www.abp.org.br/portal/archive/category/psicofobia

2. http://epoca.globo.3.com/colunas-e-blogs/cristiane-segatto/noticia/2013/08/psicofobia-e-o-peso-das-palavras.html - Entrevista com chico anysio, humorista que sofria de depressão.

3. http://pablo.deassis.net.br/2013/02/a-psicofobia-e-o-diagnostico-em-saude-mental/

4. Aula do Programa de Educação Continuada (PEC) da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) ministrada pelo professor Wagner Gattaz – sobre Psicofobia.